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ARTIGO: Recorda-te do Fim - A Beleza do Efêmero
De tudo aquilo que podemos esperar da vida, existe apenas uma certeza: a morte. Não sabemos o que acontecerá amanhã, quais caminhos percorreremos ou quais pessoas permanecerão ao nosso lado, mas sabemos que, em algum momento, morreremos...
União & Libertação
Apostolado Cristão
De tudo aquilo que podemos esperar da vida, existe apenas uma certeza: a morte. Não sabemos o que acontecerá amanhã, quais caminhos percorreremos ou quais pessoas permanecerão ao nosso lado, mas sabemos que, em algum momento, morreremos. Como observa Martin Heidegger em Ser e Tempo, a morte não é apenas um acontecimento futuro, mas uma possibilidade que acompanha a existência humana e revela sua finitude. Sêneca, em Da Brevidade da Vida, também nos recorda que o problema não está somente na brevidade da vida, mas na maneira como desperdiçamos o tempo que recebemos.
Ainda assim, vivemos frequentemente como se o tempo fosse inesgotável. Adiamos, acumulamos e nos apegamos ao que é passageiro, esquecendo que também nós estamos de passagem. A consciência dessa finitude, contudo, não torna a vida sem valor; pelo contrário, revela o valor do tempo e das coisas que recebemos. Para o cristão, a morte também recorda que a existência não termina no tempo: caminhamos para a eternidade. Por isso, somos chamados a viver plenamente a vida presente, sem perder de vista nosso destino último.
Tudo aquilo que compõe nossa existência está submetido ao tempo. A juventude cede lugar à velhice, a beleza se transforma, as riquezas podem ser perdidas, o poder passa de mãos e até mesmo os momentos mais felizes tornam-se, inevitavelmente, lembranças. Heráclito, ao refletir sobre o caráter mutável da realidade, compreendeu o mundo como um constante devir, no qual nada permanece exatamente como é. A tradição das vanitas, posteriormente expressa de maneira marcante na arte, tornou visível essa mesma verdade por meio de símbolos como a caveira, a ampulheta, a vela que se apaga e as flores que murcham. Todos eles recordam ao homem que aquilo que hoje possui diante dos olhos está submetido à passagem do tempo.
Entretanto, reconhecer a transitoriedade das coisas não significa considerá-las desprovidas de valor. Pelo contrário, talvez seja justamente sua condição passageira que lhes confira parte de sua beleza. Uma flor não precisa durar para sempre para ser bela; uma tarde não precisa ser eterna para ser preciosa. O que é efêmero pode possuir um valor ainda maior justamente porque não pode ser conservado indefinidamente. A consciência de que tudo passa, portanto, não deveria nos conduzir ao desprezo pela vida, mas à contemplação mais atenta daquilo que recebemos enquanto ainda o temos.
Se tudo aquilo que nos cerca está submetido à mudança, também o tempo não permanece em nossas mãos. Santo Agostinho, ao refletir sobre o tempo no Livro XI das Confissões, percebe a dificuldade de apreendê-lo: o passado já não existe, o futuro ainda não existe e o presente, enquanto o vivemos, imediatamente se transforma em passado. O homem encontra-se, assim, constantemente entre aquilo que já perdeu e aquilo que ainda não possui. O tempo é recebido, mas não pode ser retido. Cada instante que chega já começa a desaparecer, e é justamente essa condição que torna a vida irrepetível.
Talvez por isso o homem precise recordar-se de que não possui o amanhã. A tradição cristã expressou essa consciência na máxima memento mori: “recorda-te de que hás de morrer”. Na Regra de São Bento, entre os instrumentos das boas obras, encontra-se a recomendação de “ter a morte presente diante dos olhos todos os dias”. Lembrar a morte, portanto, não significa desprezar a vida, mas reconhecer seu limite. Quando o homem se esquece de que seu tempo é finito, corre o risco de desperdiçá-lo com aquilo que, diante da eternidade, possui pouca importância. Recordar o fim é, antes de tudo, aprender a olhar com mais atenção para o tempo que ainda nos foi concedido.
Para o cristianismo, porém, a morte não representa o fim da existência humana. Ela encerra a vida terrena, mas abre o homem à realidade da eternidade. Santo Tomás de Aquino ensina que o ser humano possui uma finalidade última e que nenhum bem criado é capaz de proporcionar, por si só, a felicidade perfeita que o homem deseja. Aquilo que encontramos neste mundo pode proporcionar alegrias verdadeiras, mas permanece limitado e passageiro; a felicidade plena encontra-se somente em Deus. Bento XVI, na encíclica Spe Salvi, também reflete sobre esse desejo humano de uma vida que não termine. O homem não deseja simplesmente prolongar indefinidamente sua existência terrena, mas alcançar uma vida plenamente realizada, livre daquilo que torna a experiência presente limitada e transitória.
Por isso, para a fé católica, a morte não deve ser compreendida como o desaparecimento definitivo da pessoa, mas como o término de sua peregrinação terrena e o início de sua realidade definitiva diante de Deus. Após a morte, cada pessoa encontra-se diante do juízo particular, no qual sua vida é colocada diante da verdade de Deus. O destino último pode ser a comunhão plena com Ele no Céu, a purificação necessária para aqueles destinados à salvação ou a separação definitiva de Deus no Inferno. A vida terrena, portanto, embora passageira, não é insignificante. É durante esse breve intervalo de tempo que amamos, escolhemos, praticamos o bem e orientamos nossa existência. A consciência de que a morte nos conduz à eternidade confere, assim, uma seriedade ainda maior às escolhas que fazemos no presente.
Recordar a morte, portanto, não significa desprezar a vida ou viver sob o peso constante do medo. O memento mori não é um convite a abandonar as coisas boas que a existência terrena oferece, mas a reconhecer que nenhuma delas constitui nosso fim último. Podemos amar, trabalhar, construir, contemplar a beleza e desfrutar dos bens que nos foram concedidos, desde que não façamos deles aquilo em que depositamos toda a nossa esperança. Viver bem não significa esquecer a morte, mas justamente permitir que a consciência dela nos ensine a viver com maior sabedoria. Devemos ter os pés na terra, mas os olhos voltados para a eternidade.
É justamente nesse sentido que o efêmero pode revelar sua beleza. Uma flor não precisa durar para sempre para ser bela, uma tarde não precisa ser eterna para ser preciosa, a juventude não precisa permanecer para sempre para ter valor. Aquilo que passa não é necessariamente aquilo que não importa. Pelo contrário, a consciência de que algo não permanecerá pode nos ensinar a contemplá-lo enquanto o temos. A vida humana também é assim: breve, irrepetível e limitada. Por isso, não deve ser desperdiçada. Se sabemos que nosso tempo na terra é passageiro, devemos vivê-lo bem, fazendo o bem e amando enquanto ainda podemos, sem esquecer que, além de tudo aquilo que passa, existe uma eternidade para a qual caminhamos.
Recorda-te do fim. Não para viver com medo da morte, mas para viver com consciência de que o tempo que recebemos é limitado. Tudo aquilo que pertence à vida terrena passa: a juventude, a beleza, as riquezas, as conquistas e até os sofrimentos. Para o cristão, porém, a morte não é o fim, mas a passagem para a eternidade. Por isso, devemos viver bem enquanto caminhamos neste mundo, amando, fazendo o bem e cultivando a virtude, sem transformar aquilo que é passageiro em nosso destino último. A verdadeira sabedoria está em viver plenamente o presente sem esquecer aquilo que nos espera além dele. Recorda-te do fim: vive bem no tempo, mas não te esqueças da eternidade.
AGOSTINHO, Santo. Confissões. Livro XI. São Paulo: Paulus, 1997.
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IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2000.
SÊNECA, Lúcio Aneu. Da brevidade da vida. Tradução de Lúcia Sá Rebello. Porto Alegre: L&PM, 2007.
Sobre a Autora
Laís Zanin tem 21 anos e é estudante de Direito. Atualmente, realiza estágio no Tribunal Regional Federal da 3ª Região. Tem interesse especial pelo Direito Civil e acredita que sua fé católica faz parte de quem ela é e da forma como enxerga o Direito e a vida.
Artigo acadêmico cedido pela autora e adequado aos critérios editoriais institucionais do portal da União e Libertação.
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